Mas nem sempre foi assim.
Fora barraca, transmutara-se em casa, crescera como sobrado, derrubou-se e renasceu inúmeras vezes, construiu suas fortificações pouco a pouco.
Um dia se viu como muro, largo e forte. E por mais de um quilometro se estendia.
E mais uma vez decidiu mudar. Dobrou-se e cresceu. Cercou vasta área. E se fez Fortaleza.
Durante muito tempo houve quem movimentasse cada tijolo, cada pedra na formação dela. Mas belo dia, linda e imponente resolveu julgar-se pronta.
E a cada tijolo deu uma importância magnânima. E a cada pedra se apegou com a força da rocha bruta. E a cada ataque a Fortaleza resistiu. E dia após dia se reinventou. Sempre mais forte, sempre mais viva. Já habitava nesta seu exercito.
Homens de natureza rude, protegiam-na com unhas e dentes. E ela os protegia com sua imponência.
E ela metia medo em seus inimigos. Mas ataque mais fortes e mais diretos a acometiam dia após dia. Belo dia a Fortaleza se viu em clima inóspito. Tempestades tribulavam sua firmeza. E cada raio era um susto as suas rochas. E cada raio que a atingia, fazia pó uma de suas pedras.
Mas a tempestade, insistente e fria promoveu mais uma vez a mudança. E a Fortaleza aceitou a mudança. Afinal, mudara incessantemente admitira novos horizontes às suas fortificações. Por que não aceitar a tempestade? Por que não esperar a bonança?
Mas era difícil para a Fortaleza. Cada pedra, agora pó, fora sua sustentação. Certo que a tempestade sempre ajuda nas defesas, afinal que inimigo assusta quando tão notória fúria se anuncia dos céus? Fora o tempo necessário à Fortaleza para que buscasse novas pedras, mas muitas dessas novas pedras eram fracas, e como viravam pó tão facilmente ao primeiro esforço de resistência, à primeira pressão dos grandes muros!
Então Fortaleza abaixou seus muros, afinal, pedras novas são difíceis de encontrar em uma tempestade. E como que surpresa recebeu um ataque! Mas dessa vez a invasão se fez silenciosa, não fora bem um ataque afinal, só aproximação. Novo povo adentrava a Fortaleza. Não queriam destruí-la, pelo contrário, a ajudaram. Buscaram novas pedras, buscaram novas matérias-primas a fortificar a Fortaleza. Mostraram que nem sempre os altos muros são a maior defesa. Mostraram que mudança e tempestade são amigas e podem ser administradas a favor.
E mais uma vez Fortaleza se erguia sobre a tempestade, agora com um enorme fosso a rodear-se. E uma linda ponte que permitia ao povo amigo a aproximação. A entrada. O abrigo. E mantinha longe os inimigos.
E que bela surpresa! Fortaleza reencontrou algumas pedras. As pedras não se tinham esfarelado como pensara. Só algumas, as mais fracas. E essas pedras retornaram, e o novo povo as fixou, com carinho, com cuidado às bases da Fortaleza.
Fortaleza se via feliz. E se perguntava. Durará na eternidade minha força? Serei sempre assim forte? Mas não esquecera a tempestade, agora constante, mas bem vinda.
Fortaleza abriga seu povo, mas por dentro ninguém vira. As vezes caem tijolos, às vezes criam-se teias, mas Fortaleza conta também com o novo povo, a cuidar, às vezes, quando permite, de sua limpeza de sua renovação.
Aprende Fortaleza, muda, diz o povo, e Fortaleza se vê em seu povo, e o povo se vê na Fortaleza.
(Pedro Augusto Almeida Ayres)

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